Coma
Conto publicado no livro Som do Fim do mundo
Estava quase tudo pronto para a janta de sábado.
Mamãe colocava as panelas sobre a mesa. Papai via o noticiário após tomar um banho. Meu irmão assistia o vídeo de algum youtuber e eu estava largado no chão da sala desenhando em folhas amareladas.
Nosso cachorro estava deitado na frente do ventilador tentando fugir do calor.
Um sábado qualquer. Não havia acontecido nada de mais ao longo do dia. Insisti para mamãe me levar na casa do Edu, mas ela disse que ele estava com catapora, e não queria que eu pegasse.
Meu pai passou o dia com um amigo trocando o aparelho de som do carro.
De birra passei o dia todo ali. No meio da sala, rabiscando coisas no papel. Burrice minha, pois a dor no corpo veio com força total.
A janta ficou às dezenove horas. O horário de sempre. Mamão dizia: nem muito cedo, nem tardiamente.
Mamãe gritou meu nome. Depois gritou Ricardo, que era o meu irmão. Depois Luiz que era o meu pai. Gritou duas vezes e depois disse que não chamaria mais. O cachorro foi o primeiro a chegar. Sentado ao lado da mesa, ele babava, com o focinho em direção à panela cheia de carne e batata.
Meu irmão desceu a escada correndo. Meu pai deu um sermão nele e o mandou lavar as mãos. Ricardo é cinco anos mais velho que eu. Já está no ensino médio.
Ele fala que as garotas não param de pedir para sair com ele. Sei que é mentira, mas fico com inveja dessa falsa fama que pode ser verdadeira.
Papai diz que isso chega para todos os homens da família. Que na sua juventude também era um sortudo com as garotas. Minha hora, chegará, ele sempre diz para finalizar a conversa.
Mamãe discorda, e diz que o papai, só sabia ficar desenhando e não falava com ninguém.
Eles não brigam. Nunca brigaram. Não que eu tenha visto. Meu pai nunca levantou a mão para minha mãe e minha mãe nunca ameaçou ele com uma faca. Tal como a mãe do Edu.
Certa vez, ela ficou tão brava com o Seu Manuel que jogou uma faca nele. Edu e eu estávamos comendo pão com manteiga na cozinha. Vimos toda a cena. A faca era aquelas de cortar pão. A mesma que ela havia acabado de usar para serrar os pães no meio antes de passar manteiga e nos servir.
Aceitei por educação. Manteiga solta meu intestino. Após comer, tive que ligar pedindo que mamãe fosse me buscar.
— Não conte para sua mãe o que aconteceu aqui, tá? — Pediu a mãe do Edu. Não contei para mamãe, nem para ninguém.
Edu disse que eles brigam quase todo dia. O pai do Edu bebe muito, e quando chega em casa, agarra o braço da mãe do Edu, ela fica com raiva e torce o braço dele.
Na estante da casa do Edu, tem muitos troféus legais de luta. Edu disse serem todos de sua mãe.
— Ela parou de lutar, ao deixar um adversário em coma. — Edu me disse certa vez. Pesquisei depois o que era ficar em coma. O adversário está dormindo até hoje.
Sentamos a mesa. Todos com prato, um garfo e uma faca em sua frente. O branco marrom e transparente era fundo o suficiente.
Na mesa coberta por uma toalha cheia de flores roxas, as panelas estavam sobre peças de madeira. Uma panela com arroz. Outra com feijão. Aquela com carnes e batatas. Uma com macarrão e uma enorme vasilha de vidro com salada. Alface, tomate e azeitonas.
Antes de comermos, juntamos as mãos abaixo do queixo e fechamos os olhos. Antes de jantar sempre oramos. Fui para a igreja umas seis vezes em toda a minha vida. Meus pais não frequentavam e que eu saiba meu irmão não sabia rezar o “Pai nosso”, mas mesmo assim, antes de todo jantar. Mãos abaixo do queixo. Olhos fechados. Agradecemos por essa refeição e por nosso dia. Que não nos falte nunca. O senhor é meu pastor.
Somos católicos? Evangélicos? Para quem estamos agradecendo?
— O importante é ter fé — Minha mãe sempre respondia — Ele sabe que não somos pessoas de igreja, mas nossa fé já mostra que temos Jesus em nosso coração.
Papai concordava. Meu irmão concordava e eu também.
Todos disseram amém. Amém.
— Agora — começou mamãe — vamos dizer o motivo de sermos gratos — ela ficou em pé. Não servimos a comida ainda. O cachorro estava babando ao lado da mesa. Minha barriga roncou. Meu pai suspendia a cabeça numa das mãos e meu irmão estava no celular.
— Sou grata pela minha família ser saudável — Disse mamãe.
— Sou grato pelo verdão não ter caído para a segunda divisão — disse meu pai.
— Luis! — Repreendeu mamãe.
— Sou grato do fundo do meu coração — Respondeu meu pai.
— E você Ricardo? — Mamãe perguntou. — Ricardo? RICARDO!
— Sou grato por nossa internet estar funcionando hoje — disse meu irmão sem tirar os olhos do celular.
— Largue esse telefone! — Ordenou papai.
— Você é quem deu o exemplo. — Disse mamãe.
— Como? Se eu mal pego no telefone?
— Agora, né?! Após eu ter falado tantas vezes para largar aquele troço.
— Silvana, fala quando fiquei preso no celular como o seu filho.
— É só meu?
— Sou grato pela mamãe não jogar a faca no papai. — eu disse com as mãos juntas abaixo do queixo e de olhos fechados. — Sou grato por ela estar segurando uma colher e não uma faca agora.
Todos olharam para mim e depois para a colher que a mamãe segurando. Todos riram. Até mesmo o cachorro deu latido.
Uma família feliz. Aquelas de propaganda de margarina. Todos sorrindo sentados à mesa. Minutos antes de saborearem uma deliciosa refeição. Todos famintos pela felicidade.
Servi um pouco de arroz. Joguei feijão com caldo por cima dos grãos brancos. Pesquei dois cubos de carne e duas metades de batatas. Coloquei um punhado de macarrão. Colhi algumas folhas de alface e desviei das azeitonas.
— São salgadas demais — Eu disse.
— Está certo, não quer ter uma pressão alta quando for mais velho — Disse papai colocando várias azeitonas no prato.
— Diferente do seu pai que parece estar querendo se matar — Disse mamãe tirando a maioria das azeitonas do prato do papai.
— Não vou querer tomate — Disse meu irmão parado esperando algo acontecer.
— Ninguém vai servir você, não — Mamãe falou antes de sentar sem sua cadeira.
— O louco, mãe!
— Toma vergonha nessa cara, rapaz — Exclamou papai colocando a concha de feijão vazia no parto do meu irmão. — Aprende a se virar.
— Não é o garanhão da escola? — Disse mamãe com uma risadinha irônica. Papai acompanhou e os dois gargalharam.
Uma família feliz. Como em comercial de aspirador de pó. Felicidade. Zero problemas.
O som das sirenes vinha baixinho. Longe. Distante. E foi ficando cada vez mais alto. Papai olhou pela janela da cozinha e fez aquela cara de quem não está muito preocupado.
— Parece que vão passar na nossa rua — ele disse.
As sirenes ficavam cada vez mais altas. As luzes vermelhas vinham fortes do início da rua. Os carros pareciam estar a mil por hora. O som levou poucos segundos para ficar alto o suficiente para incomodar meus ouvidos.
Coloquei o primeiro punhado de comida na boca quando o primeiro bombeiro entrou pela porta com um chute.
O cachorro latiu. Mamãe gritou. Papai se levantou. Eu engasguei. Meu irmão deixou o celular cair.
O bombeiro tapava o rosto e às vezes tossia. Depois dele entraram outros. Todos bem agitados. Gritando alguma coisa. O movimento na casa ficou extremo. Papai tentou dizer algo. Mas foi carregado para fora de casa nos ombros de um dos bombeiros. O mesmo aconteceu com mamãe, com meu irmão e comigo. Em segundos estávamos do lado de fora da casa.
Os vizinhos estavam todos em nossa calçada. Meu pai gritava alguma coisa. Mamãe não dizia nada.
Me deitaram sobre uma maca e colocaram aquela coisa branca para imobilizar meu pescoço. Tentei dizer que queria minha mãe, mas não consegui.
Consegui ver um dos bombeiros saindo com meu cachorro nos braços. Ele acenou negativamente para o bombeiro a sua frente.
As ambulâncias estavam paradas sobre a calçada. Dois enfermeiros estavam com a mão na testa. Um deles estava abaixado colocando um pano prateado sobre o corpo do meu irmão. O socorrista cobriu o rosto de meu irmão e fez o sinal da cruz.
Não consegui ver onde papai estava. Escutei carros acelerando. Vi umas duas vizinhas chorando.
No canto dos olhos pude ver a mãe de Edu chegar gritando alguma coisa e tapando os olhos de Edu.
Meus olhos doíam por conta da luz das sirenes. Fui colocado dentro da ambulância. Os socorristas colocam uma máscara de oxigênio no meu rosto. Eu queria poder perguntar sobre minha mãe. Sobre meu pai e o motivo de terem coberto meu irmão como minha mãe fazia com a carne quando sobrava muito e ela ia guardar no congelador.
Não consegui dizer nada. E nada entendi também. Um dos socorristas ficou meio em pé. Colocou as duas mãos sobre meu peito. Um, dois, três.
Pela janela da ambulância eu conseguia ver um clarão vindo da minha casa. Uma fumaça manchava o céu escuro com um tom acinzentado.
Um, dois, três.
Notei meu corpo ardendo. Meus dedos das mãos pareciam finos, eu não sentia as pontas. E sentia que meus lábios não existiam. Era como se o local onde minha boca ficava agora fosse apenas uma parte reta em meu rosto.
Eu não conseguia dizer que estava bem. E não tinha certeza se estava. Meu rosto queimava. E o cheiro de queimado invadia o meu nariz. Quando finalmente consegui fechar os olhos. Eu não via as luzes das sirenes.
Onde era para estar escuro. Eu vi o fogo vindo da cozinha. A chama abraçou a mamãe por trás e a jogou por cima da mesa. Papai foi atingido por alguns estilhaços e depois engolido pelas chamas. Uma das panelas voou em direção ao meu irmão que não teve tempo de reagir.
No hospital. Olhando para uma televisão e respirando com a ajuda de aparelhos vejo uma casa preta. Os bombeiros ainda jogam água nela. Não reconheço a casa.
O pai e o filho mais velho infelizmente vieram a óbito antes mesmo do socorro chegar. A mãe está em cirurgia. O filho mais novo ficará com sequelas. O cachorrinho da família foi devorado pelas chamas.
Mostram a frente da casa. Mostram vidros pela rua. Mostram pedaços de panos que voaram com a explosão. E mostram papéis jogados pela rua. Em um dos papéis estão alguns desenhos, em um deles está uma família e atrás dela uma casa pegando fogo. O papel está um pouco chamuscado. Mas dá para ver uma assinatura no canto.
A minha assinatura.
Conto publicado no livro Som do Fim do mundo
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mouranius?
você não entende muita coisa, mas faz sentido. na sua caixa de e-mail às quintas (esse é o plano), o famoso crepúsculo da semana. ideias aleatórias como um vampiro que brilha.
— vejo você no próximo crepúsculo.
até breve,
moura


