Eu, Edilene
Eu não sou a Edilene
Faz umas três semanas que me ligam e perguntam se sou a Edilene. Quando ando na rua e ouço esse nome, já até atendo.
Mas eu não sou a Edilene. Tenho certeza disso.
Nas ligações, a mulher do outro lado do telefone, com a voz toda flanelada, pergunta pela terceira vez se conheço a Edilene. Sempre que ela pergunta, meu cérebro entra num processo de buscas no HD para ver se em algum momento da minha vida conheci uma Edilene.
Respondo que não. Também respondo que não sou ela. Digo também que não mora nenhuma Edilene aqui.
Ela pergunta o final do meu telefone e eu respondo.
— Esse é o número que temos cadastrado da Edilene — ela diz.
Mas, moça, ela passou o número errado. Ou vocês que estão com o número errado. Sim, eu tenho certeza que não conheço nenhuma Edilene. Coloca aí no seu sistema que não sou ela. Esse não é o número dela e eu nem sei quem ela é.
Tchau. Tenha um bom dia você também. Até amanhã.
Quando meu telefone toca, eu já fico com receio de atender. Repito para mim mesmo que não sou a Edilene. Não sou a Edilene. Não sou a Edilene.
Tem vez que penso em dizer que sou.
Sim, sou eu mesmo. O que gostaria?
Comecei a ficar curioso onde a Edilene se meteu. Dívida no banco? Ganhou milhões? Alguém está tentando aplicar um golpe nela? E, se for questão de golpe, como posso protegê-la? Sinto que já temos certa intimidade. Sinto que, mais alguns meses, pode ser que eu descubra que sou mesmo a Edilene.
Não, esse número não é da Edilene. Sim, é esse mesmo o final. Tenho certeza que não mora nenhuma Edilene aqui.
A moça do telemarketing me faz duvidar das minhas respostas. Chego a procurar a Edilene pela casa.
Edilene, telefone pra você!
Edilene, se você está lendo esse texto, para de passar meu telefone, por favor. Não aguento mais. Ligam sempre na hora errada.
Esses dias atendi no banheiro. Sentado, esperando acontecer o que deveria acontecer, e o telefone toca.
— Não, moça, não tem nenhuma Edilene. Sim, eu tenho certeza. Não, moça, não tenho como pedir para ela retornar, pois:
Eu não sei quem está ligando.
EU NÃO CONHEÇO A EDILENE!
Desculpa ter gritado. Sei que você só está fazendo seu trabalho. Nossa, desculpa mesmo, é que vivem me ligando da Edilene. Sim, por favor, tira meu número daí. Obrigado, Priscila.
Minhas certezas de identidade estão começando a ruir. Será que, em algum universo aleatório, eu sou a Edilene? Ou será que alguém está ligando para a Edilene e perguntando se o Maicon está? Imagino a Edilene gritando no telefone, dizendo que não conhece nenhum Maicon e se questionando se, na verdade, ela sou eu.
Eu te entendo, Edilene do multiverso.
— Alô, não, moça, aqui não tem nenhuma Edilene. Porra, Priscila. Sim, eu sei que seu nome não é Priscila, mas se você conhecer ela, fala que estou muito chateado. Pode deixar, se eu conhecer uma Edilene ao longo desses dias aviso ela que você ligou.
Eles nunca falam de onde ligam. Só dizem pra eu avisar. É um segredo absurdo. Não posso saber os buracos onde Edilene está se metendo.
Até já pensei em dizer que ela morreu. Mas me sinto mal em desejar algo do tipo pra ela. Coitada da Edilene. Coitada nada, fica passando meu telefone pra Deus e o mundo. Resolva seus problemas.
Às vezes olho no espelho e sinto que tenho uma carinha de Edilene. Uma feição assim, meio Edilene, sabe? Fico até confuso.
Na última vez que ligaram, era um robô.
— Se você for a Edilene, diga SIM — disse a voz robótica.
E se eu não for? O que eu faço? Me dê instruções. Estou perdido. Não tenho certeza se sou a Edilene ou não. Não sei o que fazer se a resposta for não.
Com a respiração acelerada, o coração quase saindo da boca, desligo o telefone.
Minha esposa me vê naquela situação, encostado com a testa na parede, ofegante e suado, e pergunta:
— O que foi, Ma?
Olho com lágrimas nos olhos, ofegante, voz meio trêmula, e digo:
— Não conheço nenhum Ma.



Maicon, eu conheço uma Edilene, vou comentar que estão atras dela HAHAHHAHA