Não pergunte
Conto publicado no livro Som do fim do mundo
Até aquele momento a vida tinha seu sentido e tudo acontecia como deveria acontecer. Bom ninguém nunca falou sobre como deveria acontecer e por isso ninguém fazia a pergunta certa. Entretanto, naquele dia, ao entrar na cozinha indo buscar alguma coisa que ele esqueceu assim que atravessou a porta, William Lopes, não fez a pergunta padrão: o que vim fazer aqui?
Ele parou, olhou em volta e perguntou: por que eu esqueci?
Essa pequena questão, propagou ondas por todo o universo, e naquele mesmo instante, Maria Lucidez estava na cozinha tentando lembrar o que foi fazer ali, quando, no fundo da sua mente ela sentiu as ondas da questão levantada por Will e então, ela disse:
— Eu também não sei.
Do outro lado Will assustado por ouvir a voz de uma mulher, questiona:
— Tem alguém aí?
E nesse mesmo momento Carlos, abrindo a porta da geladeira tentando lembrar por que ia ali, escuta no fundo da mente a voz de alguém, e responde:
— Estou aqui, mas não sei o que vim fazer.
Laura que agora segurava um pote de Manteiga apenas para ocupar a lacuna da sua dúvida, sente essas ondas passando por seu corpo e responde:
— Eu também não.
As vozes ecoavam na mente de Will e dos outros. Cada um em diferentes partes do mundo conseguindo se entender perfeitamente. A dúvida certa fez algo muito mais forte do que qualquer religião. Ela abriu na mente dessas pessoas a janela para a conexão mental.
O universo continuava propagando. A terra continuava girando e o Sol continuava esquentando. A única coisa diferente é que agora esses primatas movidos a oxigênio e água romperam uma das barreiras mentais e conseguiam conversar um com o outro.
Isso era a nova evolução humana. Esse momento que ficou na passagem temporal da vida, mudaria tudo que eles acreditavam ser “A verdade”.
Nunca algo havia sido pensado e nem questionado. Os cientistas em suas salas com seus diplomas jamais iriam imaginar que o segredo para a evolução seria fazer o questionamento correto.
E ali, parados perante suas geladeiras, esses quatro seres foram ligados por uma questão única que propagava em seus subconscientes no mesmo momento.
Se Will tivesse se perguntado um milésimo de segundos antes, poderia ter evitado uma chuva de meteoros que atingiu mercúrio que resultará num mês ruim para muitos signos. Se ele tivesse feito a pergunta um dia antes poderia ter evitado a guerra civil que se ocasionou numa pequena vila italiana, onde um não-italiano buscava os direito das pessoas de colocavam ketchup na pizza.
Um tornado que estava se formando perto da costa do Japão decidiu não se formar, pois as ondas da questão o fizeram repensar se destruir uma cidade era tão relevante assim, devido a uma chuva de verão que o deixou para sair com uma tarde ensolarada no caribe.
As ondas neurais que vibraram após eles se conectarem fez uma tempestade de areia se apaixonar por um camelo e parar de destruir uma pequena vila no deserto.
Eles não sabiam de nada disso. Não tinham noção nenhuma de que estavam fazendo a diferença no mundo.
Will já havia passado por isso quando tinha dez anos. Notou que as peças de xadrez que movia, moviam sua vida. Jogará com um idoso numa praça. Um jogo acirrado no qual o velho estava perdendo a maioria de suas peças. Num erro brutal, William deixou que aquele sujeito enrugado levasse sua rainha embora e naquela mesma semana seus pais se separaram.
Sem imaginar que isso aconteceria, Will, num excesso de raiva, fez jogadas inexperientes e quando estava em xeque, com uma estratégia meia-boca conseguiu levar a rainha adversária. Nesse mesmo momento o telefone do velho toca e recebe a infeliz notícia que sua esposa havia acabado de falecer.
Ao assistir o choro do velho e semanas depois os pais se separarem o jovem Will se questiona se não foi o jogo de xadrez que bagunçou sua vida. Virando assim um questionador que fazia perguntas erradas.
As questões erradas continuam sendo realizadas milhares de vezes diariamente. Gerando em sua trajetória erronia de confusão, catástrofes que não são esperadas pela humanidade.
Num banquete chique e sem precedentes de que era o local certo para isso acontecer, um senhor pergunta para uma mesa lotada de parentes e para um garçom que não havia dormido há 48 horas se aquele pavê era de comer ou para ver.
As ondas dessa pergunta propagaram em direção ao gelo distante e rompeu um enorme pedaço, que deslizou pelo mar por meses até dar de encontro contra um imenso navio que naufragou.
Anos depois um diretor de cinema fez a pergunta: e se fizermos um filme disso?
E assim como numa constante as perguntas erradas continuaram sendo as culpadas pelos acontecimentos mais terríveis da humanidade.
Uma humanidade que ainda não sabe a resposta para sua existência, mas destrói parte dela perguntando se deveria ou não trocar o óleo do carro.
Não acredite que esses quatro humanos conectados pela questão certa estavam livres. Queria poder dizer que após a questão ser levantada e acabar gerando uma reação positiva na linha temporal e cíclica da vida, eles tiveram suas vidas mudadas e assim tornaram-se seres superiores. O que não é o caso.
Amarrados pelas suas crenças. Esses humanos os quais tinham de tudo para serem a nova humanidade. Os escolhidos para transformar a vida como a conhecemos. Esses que numa linha temporal tomaram as perguntas certas como sua mais fiel crença que os livraria de uma vida comum e sem sentido, fizeram o que qualquer pequeno ser assutado faria ao sentir a enorme força do universo correr em suas veias.
Maria virou uma devota da igreja de sua cidade, acreditando que tinha sido Deus quem falará com ela. Carlos continuou questionando coisas irrelevantes e isso fez a polícia se mobilizar quando ele decidiu saltar do último andar do prédio onde trabalhava.
Laura nunca mais falou e assim foi colocada numa clínica de reabilitação pelo marido que acreditava fielmente que a esposa estava se envolvendo com drogas.
Will, porém continuou vivendo sua vida normal. Já que não havia geladeira nenhuma onde ele estava. Nada além de paredes brancas numa sala quadrada localizada no Manicômio São Luiz, onde Will era um paciente desde que enlouquecerá ao dizer que um jogo de xadrez que o culpado de sua vida estar em ruínas.
E no fim daquele dia ele se perguntaria o motivo das paredes serem brancas e naquele mesmo dia Plutão deixou de ser um planeta e virou nômade digital.
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mouranius?
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até breve,
moura

